Tudo aqui ao mesmo tempo agora.
Nada ao mesmo tempo aqui, agora.

***

Esta tarde
Que se sobrepõe a todas as tardes
Deste dia
Que escapa a todos os dias
E traz nele todos os dias
Daqueles dias.
Esta tarde
Como aquelas tardes
Agora vazias
De desejos, de medos, de gente e de dores.
Tempo cruzado de outros tempos
Todos vêm
Misturados a sons, sabores, gestos, atmosferas,
Desejos e dores.
Tudo isto aqui agora
Desencadeado
Desencadeando
Lembrando
Sendo
Fazendo.
Sou nada mais que esta sobreposição
Olhando pra trás.
Doendo agora.
Serei o quê?
Serei o quê?, já lancei pela janela hoje
E incontáveis vezes nestes momentos tão baratos.
Tão pequenos.
Tão anônimos.
Tão visíveis em meus olhos que nada mostram.
Nadam mostram
A não ser que nada me mostro
Ou finjo não mostrar
Pois grito surdamente
E tampo a boca
Quantas vezes forem necessárias.
Será que para que perpetue estas tardes?
Será que para que assim sinta como é dolorida a eternidade?
Como dói.
Como dói.
E me alimenta
Mais que tudo.
Retroalimenta.
Mais que todos.
Sinto saudade de todos.
E do que fui.
Do que quis ser.
Do que pude.
Do que não pude.
Como dói.
Como tudo.
Como a mim mesmo.
E o pior é que…
Não há ninguém.
Ninguém me arranca isso
Ninguém divide isso.
Ninguém me investiga e joga na mesa.
O que dói mais do que a possível faca inquisidora.
O que estou sendo?
O que estou sendo.
Serei nada mais do que… uma passagem.
Serei nada mais do que milhares de tardes
Que se cruzam infinitamente
Cruzam infinitamente
Os fins a que me levo.

***
Estou no mundo descartável.
Sou o homem descartável.
Estou no mundo do tudo.
Tudo cheio de vazios.
Vazios ilusórios.
Vidas ilusórias.
Vidas descartáveis.
Promessas momentâneas trazem vidas de sonho.
O sonho também ficou descartável.
Eu não estou mais vivo.
Estou condenado ao vazio.
Pois sou descartável.
Dê um sinal
Descubra-me como sou
Dê um sinal
Mostre-me como sou
Assim me terá
Pois sei como é (você)
Pelo tempo nos teremos
Sabendo como somos

***
De repente, 14.
De repente, sonho.
Sala, tapete, sofá.
Pensamentos. Devaneios. Desejos. Vontades. Ilusões.
Música e penumbra.
Medos. Dúvidas. Angústia. Receio. Frustrações.
Melancolia e paredes brancas.
14 nunca mais.
***
Num sofá eu sonho.
Num sofá preto eu me deito e sonho.
Do sofá, deitado, meu braço cai.
Do sofá, meu braço toca o tapete.
O tapete azul engole meu sonho.
Meu sonho se perde.
Eu sonho, apenas, no sofá.

***
Quero sair
E entrar novamente
Como se tudo começasse
Novamente
Do zero
Eu quero de novo
Mas estou aqui
Não sou mais puro
Não sou mais puro
Sonhos contaminados
Apenas mais faces existentes
Pergunto-me milhares
Por quê?
Por quê?
E então todos os extremos
Todos os opostos
Atropelam-me sem dó
Todos os opostos
Todos os extremos
E não decido
Nem escolho
Meu corpo pergunta
Minhas mãos procuram
Meus olhos procuram
Finjo não saber
***
Uma pétala.
Uma pétala cor-de-rosa desce pelo caminho d’água feito na terra, após a chuva.
Caminho feito por um menino, que ali brincou.
A chuva mal se foi, lá está ele, de volta. Mais barro, água… Cheiro de eucalipto.
Barro nas mãos. Brinquedos. Nuvens. Sorrisos interiores.
Liberdade.
***
Triste. Triste.
Pobre menino.
Alegre. Alegre.
O menino sorri.
E fica amedrontado.
Pois o pobre menino é também feio.
Cicatrizes cobrem seu pequeno rosto.
Magro.
Lembranças do tempo.
Pele cortada. Pele cortada. Pele cortada.
Braço. Peito. Coração e mão.
Perna. Pé.
Correr.
Pobre menino.
Sabe que se sonhar, seus olhos afundarão.
No escuro dos pesadelos.
No escuro de sua pele.
***
A pele tem mapas.
Os cabelos, fantasias…
As mãos são guias.
E os olhos, uma vida.
Ouro e prata. Estrelas. Galáxias.
Manhã. Tarde. Noite e dia.
Sempre. Até que a mágica termine.
E a pele será pele.
Os pés serão fuga.
Os olhos, apagados.
Lágrimas geladas.
Ferrugem.
Noite e dia. Noite e dia.
Sempre. Até que tudo recomece.
***
