Tudo aqui ao mesmo tempo agora.

Nada ao mesmo tempo aqui, agora.

marco-061

***

Esta tarde

Que se sobrepõe a todas as tardes

Deste dia

Que escapa a todos os dias

E traz nele todos os dias

Daqueles dias.

Esta tarde

Como aquelas tardes

Agora vazias

De desejos, de medos, de gente e de dores.

Tempo cruzado de outros tempos

Todos vêm

Misturados a sons, sabores, gestos, atmosferas,

Desejos e dores.

Tudo isto aqui agora

Desencadeado

Desencadeando

Lembrando

Sendo

Fazendo.

Sou nada mais que esta sobreposição

Olhando pra trás.

Doendo agora.

Serei o quê?

Serei o quê?, já lancei pela janela hoje

E incontáveis vezes nestes momentos tão baratos.

Tão pequenos.

Tão anônimos.

Tão visíveis em meus olhos que nada mostram.

Nadam mostram

A não ser que nada me mostro

Ou finjo não mostrar

Pois grito surdamente

E tampo a boca

Quantas vezes forem necessárias.

Será que para que perpetue estas tardes?

Será que para que assim sinta como é dolorida a eternidade?

Como dói.

Como dói.

E me alimenta

Mais que tudo.

Retroalimenta.

Mais que todos.

Sinto saudade de todos.

E do que fui.

Do que quis ser.

Do que pude.

Do que não pude.

Como dói.

Como tudo.

Como a mim mesmo.

E o pior é que…

Não há ninguém.

Ninguém me arranca isso

Ninguém divide isso.

Ninguém me investiga e joga na mesa.

O que dói mais do que a possível faca inquisidora.

O que estou sendo?

O que estou sendo.

Serei nada mais do que… uma passagem.

Serei nada mais do que milhares de tardes

Que se cruzam infinitamente

Cruzam infinitamente

Os fins a que me levo.

jul-8791

***

Estou no mundo descartável.
Sou o homem descartável.
Estou no mundo do tudo.
Tudo cheio de vazios.
Vazios ilusórios.
Vidas ilusórias.
Vidas descartáveis.

Promessas momentâneas trazem vidas de sonho.
O sonho também ficou descartável.
Eu não estou mais vivo.
Estou condenado ao vazio.
Pois sou descartável.

Dê um sinal

Descubra-me como sou

Dê um sinal

Mostre-me como sou

Assim me terá

Pois sei como é (você)

Pelo tempo nos teremos

Sabendo como somos

julho-057

***

De repente, 14.

De repente, sonho.

Sala, tapete, sofá.

Pensamentos. Devaneios. Desejos. Vontades. Ilusões.

Música e penumbra.

Medos. Dúvidas. Angústia. Receio. Frustrações.

Melancolia e paredes brancas.

14 nunca mais.

***

Num sofá eu sonho.
Num sofá preto eu me deito e sonho.
Do sofá, deitado, meu braço cai.
Do sofá, meu braço toca o tapete.
O tapete azul engole meu sonho.
Meu sonho se perde.
Eu sonho, apenas, no sofá.

mini3

***

Quero sair

E entrar novamente

Como se tudo começasse

Novamente

Do zero

Eu quero de novo

Mas estou aqui

Não sou mais puro

Não sou mais puro

Sonhos contaminados

Apenas mais faces existentes

Pergunto-me milhares

Por quê?

Por quê?

E então todos os extremos

Todos os opostos

Atropelam-me sem dó

Todos os opostos

Todos os extremos

E não decido

Nem escolho

Meu corpo pergunta

Minhas mãos procuram

Meus olhos procuram

Finjo não saber


***

Uma pétala.

Uma pétala cor-de-rosa desce pelo caminho d’água feito na terra, após a chuva.

Caminho feito por um menino, que ali brincou.


A chuva mal se foi, lá está ele, de volta. Mais barro, água… Cheiro de eucalipto.

Barro nas mãos. Brinquedos. Nuvens. Sorrisos interiores.

Liberdade.

***

Triste. Triste.

Pobre menino.

Alegre. Alegre.

O menino sorri.

E fica amedrontado.

Pois o pobre menino é também feio.

Cicatrizes cobrem seu pequeno rosto.

Magro.

Lembranças do tempo.

Pele cortada. Pele cortada. Pele cortada.

Braço. Peito. Coração e mão.

Perna. Pé.

Correr.

Pobre menino.

Sabe que se sonhar, seus olhos afundarão.

No escuro dos pesadelos.

No escuro de sua pele.

***

A pele tem mapas.

Os cabelos, fantasias…

As mãos são guias.

E os olhos, uma vida.

Ouro e prata. Estrelas. Galáxias.

Manhã. Tarde. Noite e dia.

Sempre. Até que a mágica termine.

E a pele será pele.

Os pés serão fuga.

Os olhos, apagados.

Lágrimas geladas.

Ferrugem.

Noite e dia. Noite e dia.

Sempre. Até que tudo recomece.

***